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O Ministério da
Cultura (MinC) trouxe a público, suas idéias para o que pode vir a ser a
nova lei do direito autoral brasileiro. Numa entrevista coletiva
concedida em Brasília, o ministro Juca Ferreira explicou as bases do
texto.
A iniciativa do governo brasileiro
inclui-se num movimento mundial de revisão de leis que, simplesmente,
não cabem no mundo que, na virada do século 21, tinha se tornado
digital.
O texto em vigor hoje no Brasil foi
aprovado em 1998, como atualização de uma lei criada em 1973. O texto
atual trata como ilegais atitudes corriqueiras, como a cópia de um CD
para um pen drive.
Saiba, a seguir, quais são os planos do
governo brasileiro.
Folha - O MinC coloca o texto em
consulta às vésperas das eleições. Pelas minhas contas, se serão 45 dias
de consulta, a nova lei acabará sendo apresentada em pleno processo
eleitoral...
Juca Ferreira - No seu cálculo, só
consta uma parcela do processo. Depois desses 45 dias, uma equipe do
ministério do vai se debruçar sobre todas as contribuições recebidas
para preparar um novo texto que assimile as propostas. Ou seja, o novo
texto lei só ficará pronto depois do processo eleitoral.
No ano que vem?
Não, no final deste ano.
O governo francês, no ano passado,
apresentou uma lei que tendia a enquadrar os usuários da internet. Que
caminho seguirá o Brasil? A legislação tende a ser mais aberta ou mais
restritiva?
Queremos um sistema mais aberto.
Em primeiro lugar, porque mesmo que não
houvesse o mundo digital, a internet, a nossa lei seria muito ruim. Ela
não é capaz de garantir o direito do criador porque o sistema de
arrecadação de direitos é obscuro, sem nenhuma transparência.
Além disso, a lei tem aspectos
caricaturais. A cópia individual, por exemplo, não é permitida. Quem
compra um cd não pode, pela lei, copiá-lo para o próprio ipod.
Uma editora que não queria reeditar um
livro, algo normal, torna o livro indisponível porque nem alunos nem
professores podem fazer cópia. Isso contraria a tendência do mundo
inteiro.
Há quem defenda que a lei brasileira é
boa.
A lei brasileira é um modelo de como não
deve ser. O mundo inteiro está se adaptando à realidade digital.
Mas nem sempre liberalizando...
Sim, mas todas as tentativas de se
enquadrar o mundo digital em padrões analógicos se mostraram um
fracasso. Nos Estados Unidos, chegaram a processar crianças de nove anos
que estavam fazendo cópias para os amigos.
O governo brasileiro quer criar um sistema
que estimule o pagamento do autor na internet. O que a gente quer é
legalizar.
A modernização legal, além de ampliar e
assegurar o direito do autor, quer harmonizar e garantir o direito do
investidor.
Tudo isso sem esquecer que o acesso é um
direito da população.
Mas qual o limite entre o direito ao
acesso e o direito do autor?
O autor deve ser sempre remunerado. Mas,
na medida em que reconhecemos o direito da cópia individual, estamos
garantindo o acesso da sociedade ao conhecimento.
Hoje, um professor de um curso de cinema,
não pode, legalmente, apresentar sequer cenas de um filme na sala de
aula.
Em cursos de medicina ou administração são
muitos os livros esgotados que não podem ser reproduzidos. A nova lei
quer criar uma brecha para esse tipo de cópia, mas prevendo o pagamento
do direito autoral para a cópia reprográfica.
O novo texto prevê a criminalização do
jabá --execução paga de música nas rádios e emissoras de TV. Qual a
ligação do jabá com o direito autoral?
O jabá criou um sistema perverso que
cerceia a diversidade cultural e restringe a economia da cultura.
Quem paga para executar sua música no
rádio cria a ditadura do gosto.
A partir da nova lei, quem fizer isso será
processado. Se você legitima um sistema que define o que vai ser
apresentado nas rádios e TVs, você está cerceando a liberdade, excluindo
boa parte dos autores.
O jabá se caracteriza como concorrência
desleal.
O Ecad (Escritório Central de
Arrecadação de Direitos) e alguns artistas já estão se posicionando
contra a reforma na lei. O MinC está preparado para o embate?
Estamos estudando essa reforma há oito
anos. Envolvemos mais de 10 mil pessoas em reuniões setoriais e fizemos
estudos comparativos com outros países.
O sistema brasileiro de arrecadação quer
manter o status-quo. Mas esse sistema vive de processos jurídicos.
Temos, numa ponta, milhares de processos
contra bares, hotéis, cinemas e, na outra ponta, os artistas
desconfiados de que não estão recebendo pagamento.
Se eu fosse um sistema de arrecadação que
desperta tanta desconfiança da parte dos artistas, eu adoraria que
houvesse um sistema de transparência para que as pessoas parassem de
questionar o meu trabalho.
Como eles estão acomodados a um sistema
autoritário, unilateral, tenho certeza de que haverá reação negativa.
Mas isso é demanda histórica dos autores e
intelectuais. O Brasil não se livrará da herança da ditadura enquanto
não se livrar desse entulho.
Fonte: Site da Expo Cristã |